Belo Monte – Fazendo uma reflexão mais aprofundada

Está rolando na internet o vídeo com atores globais do Movimento Gota D’agua (não assistiu ainda ? veja em:  movimentogotadagua.com.br/   )

Algumas pessoas criticaram a forma simplista com que o vídeo é apresentado… claro, o vídeo foi produzido para atingir as grandes massas (por isso os atores da Globo e tudo o mais).

Minha colega escaladora, a Marina Demarzo fez um texto que tomo a liberdade de reproduzir:

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Hoje pensar em Belo Monte como algo essencial para o desenvolvimento é pensar antiquadamente.

Isso porque já se passou o tempo que os benefícios pelo progresso eram MAIS importantes que as demais variantes. É por pensar assim que o planeta tem tantas mordomias, mas ao mesmo tempo tantas discrepâncias e atrocidades. Atualmente, em pleno século 21, deve-se pensar em equidade no benefício que uma hidrelétrica pode trazer, e também, em IGUAL importância e peso, os pesares que ela carrega, não como um simples revés, mas como um IMPEDITIVO REAL para sua realização.

O fato é que quando se faz realmente necessário, o “sistema” dá o seu jeito, e consegue construir alternativas criativas para o que se coloca em seu caminho. Um exemplo que podemos citar aqui é a descoberta das famigeradas “células-tronco”. Quando a Igreja (e PRINCIPALMENTE os grandes governantes preocupados com suas imagens) fizeram todo o drama por causa das CT embrionárias, de repente os cientistas encontraram células-tronco por tudo que é lugar no próprio corpo humano adulto, ou ainda no cordão umbilical dos bebês, pois o retorno monetário da possibilidade de uso das CT’s são inimagináveis e sua pesquisa precisava de um modo ou outro continuar. Mas, quando não é do interesse, tecnologias interessantíssimas e financeiramente acessíveis, como motores limpos para automóveis, existem há mais de 10 anos, mas não saem do papel.




Por isso que fazer a “relação direta entre energia e desenvolvimento sócio-econômico” é falar para os porcos que ficarão com as pérolas. Digo isso pois fica fácil enxergar a real relação de interesses sócio-econômicos quando comparamos a quantidade da população com acesso à energia elétrica, que chega a 94%  ou mais em todas as regiões do país, e a rede de esgoto, que passa de 50% apenas no Sudeste (obviamente – com 79%), e que puxa pra cima o índice nacional de 51%. Podemos ver essa discrepância na tabela abaixo:


*Referências para a tabela:

www.ibge.gov.br/vamoscontar/guias_flipbo…

www.ibge.gov.br/home/estatistica/populac…

 

Agora podemos pensar: será que os governos pensam INGENUAMENTE ser mais importante pra população a luz do que o saneamento básico? Ou será que a luz que chega até nós é uma CONSEQUÊNCIA da energia que tem que sair das hidrelétricas e chegar aos grandes centros industriais do país?

O futuro deveria ser pensado não na direção de produções “megatônicas” de energia, mas sim, se tivesse como foco as residências, as pessoas físicas, na produção local, na distribuição local, utilizando o que cada região tem de potencialidade. Mas a questão é que não é disso que estamos falando.

Belo Monte se trata de atingir patamares de produção de energia que não tem nada a ver com a gente, “simples mortais”. A nós, como sempre, só cabem as más consequências.

E uma dessas más consequências é o custo do desenvolvimento ocidental ser simplesmente jogado pra nós, os consumidores finais do sistema. Concordo plenamente quando é dito que nenhum de nós está disposto a pagar em prol do meio-ambiente (seja em dinheiro ou em diminuir os benefícios que a vida moderna proporciona). MAS NÃO É ESSA A QUESTÃO.

Em primeiro lugar é preciso estar atento ao verdadeiro ALVO das ações. As pessoas que vivem sua vida cotidiana (as que, como nós, não têm qualquer poder político que possa reger vidas que não estão ao nosso redor) DEVEM SIM ter uma mudança de comportamento, reutilizando, reciclando, não produzindo lixo desnecessariamente, usando o que estiver ao seu alcance que seja o menos prejudicial possível para o planeta. Mas, muito mais importante que é isso é a MUDANÇA DE PENSAMENTO.

Querem jogar a culpa do ESTADO DAS COISAS em nós, e mais, jogar a RESPONSABILIDADE da mudança em nós, dizendo que é nossa vida tem que mudar, que nós é que temos que pagar mais caro se quisermos não fazer mal ao meio-ambiente, que nós vamos ter que fazer sacrifícios, se não quisermos o “mais do mesmo”. E, com essa escolha em mãos, realmente, ou nos tornamos “hipócritas”, para os outros e para nós mesmos, por bradar vozes por uma atitude, mas ter outra no dia-a-dia, ou mandar tudo às favas, por pensar que não tem solução e que é assim mesmo que tem que ser e se contentar entre o “mais ruim”ou o “menos ruim”.

É assim que está bom. NÃO PRA NÓS, mas para os que querem que as coisas permaneçam assim. Nós na realidade somos REFÉNS de um sistema que retira o real valor das coisas em todo o seu processo de produção, e tirando um  pouquinho aqui, um pouquinho ali, a riqueza se acumula em poucos pontos (nos gordos bolsos dos que economizam aqui e ali a sua produção). E os salários de quem trabalha FAZEM PARTE dessa economia. Não recebemos uma quantia suficiente que pague o real valor das coisas, por isso NÃO PODE CABER A NÓS ESSA RESPONSABILIDADE. A maioria esmagadora da população é parte do sistema que precisa ser mudado, mas porque somos TÃO VÍTIMAS quanto o planeta, não algozes dele.

Mas é possível sim uma opção diferente de vida, mas ela só será válida não quando todos nós abrirmos mão do que temos, mas sim quando TODOS NÓS ESTIVERMOS CONVENCIDOS QUE A VIDA PODE PERMANECER A MESMA, MAS DIFERENTE.

Porque será aí que as corporações terão que atender às nossas novas demandas. E vão fazê-lo, se nós realmente quisermos que eles o façam, porque em última instância eles dependem de nós.

Nossas escolhas moldam as escolhas deles. O problema é que antes, eles moldam as nossas. Mas precisamos quebrar esse ciclo e moldarmos nós mesmos o que queremos, porque só aí é que as coisas serão diferentes.

Pra finalizar, fica a dica de um vídeo legal sobre a urgência de se pensar uma nova maneira de vivermos nossa sociedade, o documentário “História das Coisas”:

www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k.

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Adendo do Davi Marski :

para se aprofundar mais sobre o assunto:

www.internationalrivers.org/files/Belo%2…

www.nuca.ie.ufrj.br/gesel/tdse/TDSE35.pd…

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7 Comments

  1. Excelente texto parabéns …. Muito bem escrito .

    Textos assim deveriam ser lidos pela grande massa , não só o que nos é imposto pela grande mídia. Parabéns .

    Alexandre Wenderroschy

  2. A reflexão aqui apenas levou em conta o lado da não construção, vamos tratar do outro lado, para que seja possível aprofundar o tema de verdade e incluir novas variáveis

    Primeiro, não esqueça que para fazer saneamento básico, é necessário energia elétrica (MUITA). Para ter esse texto escrito em uma página na net, precisa de muita energia também. A vida humana precisa de energia.

    O desenvolvimento social passa obrigatoriamente pelo desenvolvimento econômico (não tem mágica aqui não) que por sua vez precisa de energia (de novo, muita). Precisamos enquanto nação gerar empregos, milhões dele. Para isso vai mais energia. Precisamos aumentar o acesso a internet, de novo mais energia, saneamento básico, mais energia (as bombas e todo o tratamento do lodo é feito com energia elétrica) e toda essa energia tem e vir de algum lugar

    o Brasil já está no limite da produção energética, não podemos correr o risco de novos apagões, e também há de se evitar novas usinas a gás, carvão e diesel (que são fonte de energia extremamente poluentes) para cobrir a falta de energia de fonte mais limpas

    Temos de industrializar o país, sair da condição de colônia, de vender matéria prima (minério, algodão, soja, petróleo) e comprar produtos industrializados de fora (Aço, mosquetões de escalada, corda, chapeletas, roupas, ração, gasolina..)

    É muito romântico e bacana ser contra a usina de Belo Monte, também é fácil ser contra, duro é ter de tomar essas decisões e assumir a responsabilidade futura sobre esses atos.

    Quando houver apagões no país ninguém vai cobrar os atores globais que doaram seus 5 minutos de fama para a nobre causa ambiental. Vão cobrar o governo, e quem vai sofrer é o povo, ainda mais o povo pobre que vai perder seus empregos.

    Convenhamos, atores globais querem mais que o país fique as escuras e não se desenvolva, pois quanto menor o grau de desenvolvimento mais publico eles terão

    Há muitas, milhões de vidas de cidadões brasileiros em risco, seu desenvolvimento e sua qualidade de vida e esse deve ser o foco. As pessoas.

    Se cada brasileiro tiver, assim como eu e você um computador acessando a internet, o sistema elétrico entra em colapso total. Simples assim. Não tem energia para isso.

    Da forma como é colocado, extremamente simplista é apenas colocado como se pessoas más querem construir e as boazinhas querem preservar. Não é bem assim. Quem quer construir tem motivos, tem estudos e tem ciência dos riscos e problemas. Ninguém acorda pela manha com vontade de destruir a floresta, de alagar vales inteiros, não é dessa forma que deve ser visto.

    Para aqueles que acham que estão construindo essa usina para roubar apenas, seria muito melhor construir uma usina eólica das mesmas proporções de geração elétrica, com um custo 3X maior, com certeza a roubalheira seria maior. As empreiteiras seriam as mesmas bem como os fornecedores das turbinas. Não haveria diferença.

  3. Parabens Renato, resposta corajosa e concordo com vc. O Brasil está crescendo, milhões saindo da linha da pobreza e também querendo ter ar condicionado split (10×69,90), home theater (10x 33,00), video game (10×69,90), etc… para isso precisa muita energia. E para termos usinas eólicas , tem que ter uma energia reserva que vem de gás, carvão ou nuclear,…, que são mais caras e poluem muito mais ! é muito fácil dizer que temos alternativas sem conhecer os aspectos técnicos… Não sou governista, mas concordo totalmente neste caso Belo Monte com o governo atual (PT), tem que tocar essa obra por interesse público do Brasil , Altamira e outras cidades do Pará irão piorar muito por um tempo, e depois se desenvolver, o padrão de vida de sua população vai melhorar.

  4. Vejam o exemplo do maior parque eólico do Brasil , em Osório , RS, 150MW, mas com fator de capacidade de 34% (média mundial 30%) , ou seja, a média da energia gerada é 51MW. Precisaria uns 78 parques iguais a Osório para conseguir a média de energia gerada em Belo Monte, em torno de 4.000 MW. E se os ventos param 1 semana, 2 dias ? como fica a indústria, a população, os restaurantes, bares, …. é caos geral. O apagão de 2001 durou muito pouco, poucos dias ! A energia é fundamental nas nossas vidas, e precisamos dela 99,9% do tempo !!!!

    Usinas eólicas também:
    - matam pássaros
    - fazem barulho para os habitantes das redondezas (barulho sem parar !!)
    - necessitam uma área muito grande, pois não se pode colocar geradores em série, pois a velocidade do vento diminui…

    é muito bom o discurso, mas na prática, nada fácil !!

    abraço

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