Guia de Montanha

Uma lhama no carro? em Nova York? É... muita gente se sente tão deslocada no ambiente de montanha quanto essa lhama aí...

Coloco aqui um email que enviei para os participantes da trip que irá começar em breve nos Alpes e depois na Cordilheira Real, na Bolívia .  São algumas divagações que fiz sobre o papel de guia de montanha, sobre segurança, riscos objetivos e subjetivos… acho que vale a pena compartilhar com mais gente.

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Tenho certeza que todos estão ansiosos com a proximidade da viagem, com as expectativas e anseios que são formados em nosso imaginário.

Iremos conversar muito e interagir bastante durante a expedição, entretanto, como guia de montanha é minha obrigação informar a cada um dos participantes e amigos um pouco sobre a minha filosofia de trabalho.

Eu “ofereço” não apenas um “cume” ou “via de escalada” mas o meu melhor possível relacionado à vivência com a cultura local, tentando proporcionar uma boa interação não apenas entre todos nós, mas principalmente com as pessoas com quem iremos nos relacionar.

Essa abordagem nos permite conhecer melhor uns aos outros, e mais do que isso, me permite conhecer as dificuldades e é claro, capacidades de cada um. Assim é possível personalizar a experiência da escalada da melhor forma possível (para alguns isso será facilitado, para outros certamente pedirei que auxiliem em tarefas do cotidiano).

A partir do momento em que começarmos a expedição,  não há como garantir que chegaremos ao cume de qualquer montanha. Claro que farei o melhor possível, e utilizarei de todos os recursos seguros possíveis, entretanto, as pessoas são diferentes (física e psicologicamente) e alguns talvez não se sintam seguros para continuar, ou outros, apesar de se sentirem seguros, não estarão com capacidade física para tal.

Ao contrário da quase totalidade das outras atividades físicas, a escalada em grandes montanhas desafia a sua resistência física ao limite da exaustão, pressionando constantemente sua determinação mental em continuar (e levando-o a pensar: “o que eu estou fazendo aqui ?”), entretanto, logo após entrarmos no glaciar de qualquer grande montanha, ou de atravessarmos o circo glaciario, a zona de debris, deixamos de ter opções realmente seguras na montanha.

Estaremos longe do nosso acampamento base, longe de um refúgio seguro, longe de qualquer espécie de conforto – e quando você chegar à exaustão (note que não estou dizendo que “se” você chegar à exaustão, e sim “quando”, pois isso é uma certeza do que irá acontecer…), quando você chegar à exaustão, simplesmente desistir, parar e resolver descansar “um pouco” não é uma opção possível. Nesse momento será necessário encontrar forças em algum lugar do seu corpo e continuar até retornarmos em segurança ao nosso abrigo no acampamento base (ou refúgio de montanha). Apenas assim você não colocará sua segurança física e a dos demais participantes em risco.

A escalada de qualquer montanha apenas termina quando retornarmos ao acampamento base.

Chegar ao cume é apenas a metade do caminho. Você precisa ter determinação e energia para continuar em atividade, com atenção e concentração, durante todo o percurso de volta.Na verdade, usualmente despenderemos várias horas para chegar à um local seguro após o cume de qualquer montanha.

Estaremos muito fora da nossa “zona de conforto”.

Vá pensando nisso: Cansaço é quando sua mente desiste antes que o seu corpo.

Quando você achar que não aguenta mais, que não é capaz de dar mais um passo, respire fundo, esvazie sua mente dos problemas e preocupações, e foque-se com toda a determinação e concentração mental em simplesmente economizar o máximo possível de energia e força em seus movimentos, e com clareza e suavidade, continuar escalando, continuar caminhando, continuar em atividade.

Quando você me contrata como guia de montanha, de certa forma você está confiando a sua segurança e integridade física aos meus cuidados, experiência prévia, capacidade técnica e conhecimento específico. Em outras palavras: constantemente estarei avaliando cada um de vocês com respeito à aclimatação, às dificuldades e capacidades de cada um, tentando proporcionar a melhor experiência possível.

Qualquer guia de montanha certificado possui grandes conhecimentos e capacidade em termos de resgate e gerenciamento dos riscos objetivos. Por sua vez, há alguns elementos (riscos) subjetivos com os quais simplesmente não há como lidar: alterações climáticas, instabilidades políticas (nos países de 3º. Mundo), problemas de saúde inesperados (vá que você tenha uma apendicite ? uma crise renal ? É por isso que um seguro de saúde internacional é importante – sugiro o : www.worldnomads.com)

Portanto, é minha função minimizar ou excluir as situações e atitudes que envolvam riscos objetivos e na medida do possível, antecipar-me aos riscos subjetivos. É por isso que considero importante minimizar os riscos objetivos: aclimatação, preparação física, ótima saúde, equipamento adequado, roupas adequadas – todos estes itens fazem parte dos arsenal de recursos que podemos dispor (e possuir) para contornarmos os riscos objetivos. Para os riscos subjetivos, os problemas que não podemos prever ou antecipar – tais como um queda em greta, uma avalanche, fratura, edema cerebral, white out, entre tantos outros riscos subjetivos em potencial – é aí que a experiência e a minha capacidade em sair do problema (por já ter vivenciado ou simulado diversas vezes) fará toda a diferença.

Estou dizendo tudo isso pois quando uma pessoa confia à mim a sua vida, a sua segurança, eu considero isso como uma gigantesca responsabilidade (e infelizmente tem muita gente que age apenas como se fosse mais um trabalho qualquer).  Essa relação de confiança se manifesta na relação de proximidade que tentarei estabelecer com cada um de vocês.

Eu sinceramente não acredito que exista “o melhor isso” ou “o melhor aquilo”. Para mim, como guia de montanha, o sucesso de uma expedição não diz respeito se conseguiremos ou não chegarmos ao cume, e sim se todos retornaremos íntegros para nossas casas após o término da viagem. Na verdade, o cume é “só a cereja em cima do bolo”. (É por isso que deixo bem explícito que é ao meu exclusivo critério a decisão de permitir ou não que um participante continue para o “ataque ao cume”).

Quero finalizar esse longo email dizendo o seguinte: não existe montanhismo livre de riscos. Eles estão lá, a espreita para acontecerem assim que você ficar cansado e sem atenção, esperando que você cometa alguma bobagem…  minha responsabilidade é a de sem limitar ou excluir estes riscos objetivos, é tentar garantir que você possa envelhecer para contar essas histórias para os seus amigos!

Viajo dentro de 10 dias para uma rápida temporada nos Alpes, para os que vão comigo para lá, certamente teremos experiências fantásticas no berço do alpinismo mundial. Tanto o Mont Blanc quanto o Matterhorn são escalada de uma vida!

O Mont Blanc simboliza a escalada das grandes montanhas. O alpinismo começou ali há mais de 200 anos…  Apesar de tentarmos o cume através de uma rota fácil tecnicamente, teremos um grande risco subjetivo (avalanche e queda de rochas) ao passarmos pelo grand couloir que antecede o refúgio du Gôuter. Nesse trecho, mais do que nunca, velocidade será sinônimo de segurança.

No Matterhörn, testaremos ao máximo a resistência física. Entre sairmos para escalar e retornarmos ao acampamento base/refúgio, teremos um round trip de 12, 14 horas praticamente sem parada, com movimentação constante em uma escalada de 2 e 3 graus, em alguns poucos trechos de 4 grau. Escalaremos em simultâneo durante praticamente todo o percurso. No final da escalada, teremos uns 150 ou 200m de ascensão em neve/gelo.  O rapel da descida será o crux da escalada: mais de 40 rapéis até chegarmos ao chão… haja cansaço!

Na sequência da Europa sigo para a Bolívia, onde espero encontrarmos com todos os demais. (chego em La Paz no dia 19 de junho).

Na medida do possível tentarei receber a todos no aeroporto de La Paz (ou enviar alguém para recebê-los no aeroporto).

Para os que vão ao Huayna Potosi, saibam que apesar de grande parte das agências venderem a “idéia” de que é uma montanha fácil, ela está longe de ser algo assim… pô, é uma montanha com quase 6100m!  Para que estiver em processo de aclimatação ou em treinamento, iremos para o acampamento base a quase 4700m, onde ficaremos em um refúgio de montanha. Treinaremos alguns procedimentos no glaciar viejo enquanto damos tempos ao corpo para se adaptar a altitude, depois seguiremos por toda o contraforte até o campo alto, a 5130m, onde faremos mais uma parada estratégica.  Depois ainda teremos o campo argentino (onde podemos ou não fazer uma pausa estratégica também) e depois o cume com 6088m de altitude e uma visão incrível do sol nascendo!

Para os que vão para o Illimani, saibam que esse será o maior desafio físico que vocês já enfrentaram.  Chegar no pueblo de Pinaya já é uma grande aventura. A partir do Pueblo, iremos ao acampamento base, seguiremos depois ao acampamento avançado em nido de condores (um lugar frio, exposto e inóspito) e de lá, em um longo, cansativo e extenuante dia, iremos ao cume principal do Illimani, com seus quase 6500m de altitude. O trecho mais perigoso dessa ascensão será durante a descida (desescalando ou rapelando) do trecho técnico de gelo duro na pala chica (uns 30m realmente irritantes – quase todos os acidentes fatais no Illimani aconteceram nesse trecho, durante a descida).

Para os que vão ao curso no Condoriri, apenas chegar e ficar de bobeira no acampamento base já vale a viagem: que lugar maravilhoso é aquele! Tantas montanhas lindas, tanta coisa para fazer! Teremos o belíssimo Cerro Aústria, com quase 5200m, onde dá pra chegar caminhando de tênis, temos o Pico Mirador, de onde se têm uma visão muito bonita do altiplano boliviano, toda a visão das asas esquerda e direita, assim como a cabeça do Condoriri. Bom, teremos vários treinamentos no glaciar, e no dia do ataque ao cume, chegaremos ao pico do cerro Tarija. A visão que se têm do Pequeño Alpamayo a partir deste cume é indescritível. Para os que tiverem determinação (e vontade), poderemos descer o contraforte do Tarija e então culminar com o cume do Pequeño Alpamayo, um belo troféu a se trazer para casa.

Espero proporcionar a todos uma grande experiência no dia-a-dia no ambiente de montanha, e mais do que isso, tentar capacitar todos a terem a maior auto-suficiência possível para continuarem escalando (e se divertindo) nas grandes montanhas do mundo !

É isso.. um ótimo resto de semana a todos.

Hah… Sugiro fortemente que parem os treinos físicos na semana que antecede a sua viagem e se dediquem a comer, a tentar fazer uma espécie de reserva de gordura para a expedição.

Abraços e nos vemos “na montanha” !

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