De Santiago do Chile a Mendoza – De bicicleta

Fiz esse trajeto em final de outubro de 2012 com meus amigos Artur Vieira e Fábio Tux. No final da viagem o Fábio retornou ao Brasil e eu continuei pedalando até Bariloche. Eu voltei ao Brasil e o Artur continua pedalando até Ushuaia, um grande trecho inclusive pela carreteira austral.

Reproduzo aqui o relato do Fábio Tux dessa primeira parte da viagem. O original está em seu blog: fabiotux.blogspot.com.br/

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¡Buenas Hermano(a)s!

Conforme disse no Prólogo, entre os dias 29/09 e 11/10, eu faria uma Cicloviagem entre Santiago/CHL e Mendoza/ARG.

Vou dividir os relatos por “Dias de Pedal”, assim fica mais fácil e divertido (pelo menos pra mim) contar essa fantástica aventura!

Comecemos…

Na véspera, dia 28/09, voltei do trabalho e fui correndo pra casa pra fechar e pesar as malas, já que não comprei franquia adicional para minha bagagem.
Tinha que dar um jeito de levar minha Bici (dentro do Mala-Bike), material de camping, roupas, calçados e outras miudezas.

Só no Girinho, alforjes, mochila, etc e tal!

A viagem ocorreria no seguinte esquema: dia 29/09 eu embarcaria para Santiago e no dia seguinte encontraria meus dois companheiros de viagem, Artur Vieira e Davi Marski.

Voo em solo chileno, peguei um táxi, que já tinha sido solicitado pelos meus anfitriões, Jonatas (um amigo brazuka das antigas) e sua Esposa, MJ (a quem ainda não conhecia).

A recepção foi espetacular. Fui recebido com o maior carinho pelo casal, que já tinha um belíssimo almoço preparado.
Passamos a tarde de papo e tomando vinho. Depois demos um rolê pelas imediações de seu bairro e mais a noite fomos a um churrasco na casa dos Pais da MJ.

Senti-me um tanto encabulado por não ter habilidade com o espanhol, mas fui (novamente) muitíssimo bem recebido por todos. Aliás, pareceu-me que o chileno é um povo extremamente hospitaleiro! Todos fizeram esforço pra falar devagar e pra me compreender e quando não dava certo, o Jonatas fazia o “meio de campo…foi fantástico!
Passei momentos incríveis lá, conversando com todos, contando um pouquinho da aventura que estava por vir.

Ah…uma especialidade chilena: Tortilla de rescoldo (assada entre brasas e cinzas da churrasqueira)

No dia 30/10, dia em que meus dois companheiros de viagem chegariam, combinamos de nos encontrar no famoso Mall Sports, um shopping de esportes.

Passeamos pelo shopping, “caroçamos” em lojas de bicicleta, mas nada de encontrar os brothers.

Depois de um tempo, resolvemos almoçar. E não é que antes mesmo de nosso pedido chegar os malandros apareceram?

Artur, Davi, Jonatas, MJ, Eu!

Durante o rango, os rapazes nos contaram suas peripécias: eles chegaram na madrugada, dormiram nos bancos do aeroporto, foram logo cedo pro Mall Sports, mas tiveram que andar por vias alternativas, já que os “Carabineros de Chile” (equivalem a Polícia Militar no Brasil), fizeram compras, sairam do Mall pra almoçar, voltaram pro Mall e nos encontraram…UFA!

Estavam tão cansados que o coitado do Davi chegou a dormir na mesa. O motivo dessa “maluquice” é que ambos ficaram sem jeito de acordar o host deles e resolveram ir pro seu “pouso” só depois que nos encontrassem.

Bem…depois de um bom papo, os brothers seguiram pro seu local de descanso e eu ainda fiquei com o Jô/MJ.

No dia 01/10, começamos a “trabalhar”! Combinamos que eu iria até a casa do host deles, o Eric, e de lá seguiríamos pra primeira meta do dia: Los Andes.

Por conta do horário de verão, Jonatas, MJ e eu acordamos atrasados. Por algum motivo, os nossos celulares não sincronizaram corretamente o horário.
O resultado disso é que eu cheguei atrasado a casa do Eric.

Artur, Davi e Eric

As 10hrs pegamos a estrada. Não deu nem 2km e o Artur já tinha um belo rasgo no pneu, por conta de cacos de vidro. Paramos pro primeiro reparo.

Artur c/ a sua Surly e eu só de olho!

Trocamos a câmara, remendamos a furada e seguimos até encontrar um lugar pra comer.
Fizemos as primeiras compras e foi justamente aí que começou uma palhaçada que duraria toda a minha permanência na trip: “Ah…o Tux leva!”

Aconteceu de encontrarmo na Loja de Conveniência, garrafas de vinho com preços módicos. Compramos um “Casillero del Diablo” e sobrou pra mim carregá-lo até a meta.

Enfim…fizemos nossas compras, dividimos o peso (sobrando o vinho pra mim) e seguimos viagem.

Pouco antes de sair da cidade, ainda fizemos uma parada numa bicicletaria bem simples, onde comprei um pneu 700 pra minha Só no Girinho, pois o pneu dianteiro estava com um rasgo na lateral que logo iria me causar problemas.
Aproveitamos para comprar um pisca pro capacete do Davi!

Pedalamos por uns 10km aproximadamente, até que finalmente saímos do perímetro urbano e entramos na “AutoPista”.
Seguimos num ritmo bem tranquilo…o tempo estava nublado, mas sem perspectiva de chuva, o que nos garantiu um pedal bem confortável.

Nesse primeiro trecho fizemos uma constatação que nos seguiria durante a cicloviagem: Os motoristas chilenos são muito educados no transito.
Caminhoneiros trocam de faixa pra nos ultrapassar e os motoristas de carros de passeio aguardam pacientemente a melhor oportunidade pra passar do nosso lado com segurança.
Teve até um caso de eu sinalizar pra uma motorista nos ultrapassar, mas ela esperou até que ELA tivesse 100% segura que podia fazê-lo. E se você acha que ela nos xingou ou deu um “buzinaço”, pode mudar de opinião! Ela abriu um grande sorriso, deu “tchauzinho” e seguiu seu caminho.

Essa cena, já no começo da viagem, ergueu nosso moral de uma forma absurda! Sabíamos que faríamos uma viagem muito segura, tanto por nossos próprios cuidados, quanto pelo cuidado dos outros usuários da AutoPista.

Seguindo por uma pista lateral, ficamos um pouco preocupados quando vimos a placa de proibição de tráfego de bicicletas e um pedágio logo a frente.
Matutamos um pouco sobre o assunto e vimos que dava pra pegar uma pista auxiliar, subindo por um pequeno barrando, só pra não passar pelo pedágio.

Resolvido esse problema, um pouco de preocupação ficou no ar…mas seguimos.

Na Autopista, muito bem asfaltada e com um ótimo acostamento, saímos de Santiago e começamos a entrar na cidade de Colina.

Com uns 40km rodados, fizemos uma parada pra um lanche, junto a um ponto de ônibus, em frente a uma área militar.
Ficamos uns 35min alí, papeando e comendo, recuperando as energias pra fazer os outros 40km restantes.

Seguimos num ritmo um pouco mais lento, pois alí começava uma sequencia de subidas! Melhor poupar forças!

Ai ai ai..será que vai queimar perninha?! Vamos “Só no Girinho”!

Uma cena um tanto inusitada e muito emocionante (pra mim) aconteceu quando passamos perto de uma escolinha. Devia ser horário de entrada ou saída e tinha uma garotadinha de uns 9, 10 anos mais ou menos. Quando eles nos avistaram, ficaram gritando “dale, dale” e uma voz se sobressaiu às outras, dizendo “olha, olha…eu também quero pedalar como eles!!!”
Ao ouvir isso, meus olhos brilharam e eu senti um grande orgulho, pois eventualmente uma daquelas crianças poderia se inspirar a virar um cicloviajante quando ficasse um pouco mais velha.
Emoção pura que ainda me arrepia quando eu conto!

Com essa injeção de ânimo e alegria, seguimos por mais uns 23km, quando chegamos a um túnel.
Como não é permitido pedalar por dentro do túnel, o pessoal que toma conta de um posto de atendimento da rodovia sempre tem uma caminhonete pra nos levar pra outra ponta.

Ao chegarmos ao tal posto de atendimento, antes de pedir qualquer outra coisa, Davi indagou um dos senhores se havia água! Nossas caramanholas estavam no limite!
Nos foi permitido entrar no posto, usar o banheiro e pegar água fresquinha!

Caramanholas cheias, bexigas vazias, colocamos as bikes na caminhonete e seguimos pro túnel.

O Sr. foi muitíssimo simpático, bateu um papo conosco e nos deixou do outro lado do túnel, pra começarmos uma loooooonga descida…algo como uns 7km!

Depois disso, tivemos só “falsos planos” até a cidade de Los Andes.
Quando chegamos, paramos num Posto de Informações Turísticas e conseguimos indicações de lugar pra dormir: Hospedaria e Restaurante Arunco.

Ao chegarmos, demos de cara com o dono abrindo o local, lá pelas 17:30hrs.
O Sr. (que não recordo o nome) era um Argentino muito simpático. Rapidamente subimos pro quarto (que ficava no andar de cima, já que em baixo era o restaurante).

Comemoramos nosso primeiro dia de pedal, sorvendo a garrafa de Casillero del Diablo, tomamos banho, comemos um macarrão instantâneo e saímos pra uma volta.

Passamos ao lado de uma bikeshop simples, mas com muita coisa boa! Conversamos um pouco, ganhamos uns adesivos e seguimos pras compras de suprimentos.
Durante a compra dos suprimentos, mais uma vez o “Ah…o Tux leva!” apareceu: encontramos uma CAIXA DE VINHO de 2L SANTA HELENA!

No começo, os caras fizeram de conta que estavam com dó de mim…mas acabou que a tal caixa de vinho veio pro meu bagageiro!
Além dessa caixa, ainda pegamos outra garrafa de vinho pra beber no quarto, afinal “Tá Cedo”, lembrou o Davi (abraço pra galera do “Tá Cedo”).

Com as compras feitas, hora de uma jantinha de verdade, com direito a uma cervejinha chilena!

E depois, quarto, papo, notícias e…

 

Ainda não tínhamos decidido se puxaríamos o ritmo até o topo de “Los Caracoles” ou se acamparíamos aos seus pés…então logo fomos descansar!

A frase que eu ouvia durante o sono era “Amanhã o Dia Promete…”!

E foi assim que fui, ou melhor, fomos dormir!

Stats:
Total Percorrido: 81,8km
Ride Time: 05:22’39”
Trip Time: 08:29′
Média: 15,2km/h
Máxima: 65,3km/h
Desnível: +1653/-1409m
Baixas: Furo no pneu traseiro do Artur.

Depois de uma noite bem dormida, acordamos para um dia um tanto incerto: subir ou não subir Los Caracoles?
Estávamos preparados pra acampar, caso fosse necessário, mas havia um desejo de cruzá-lo naquele mesmo dia.
Bom, como não dava pra prever como nos sairíamos nos 45km até o pés dos Caracoles, fomos tocando pra ver o que ia dar.
Ficamos um tempão nos despedindo dos donos do Hotel, arrumando as tralhas e eis que só zarpamos mesmo as 10:30hrs.
Arrumando as tralhas na frete do Hotel
Pedal tranquilo, apesar de sempre “pra cima”. Saímos de 850m altitude e, caso fossemos até o início de Los Caracoles, subiríamos até mais ou menos 1800m, ou subiríamos até 3200m se fossemos até a fronteira, que é onde termina a tão aguardada sequencia de curvas!
Engraçado perceber como o caminho ia ficando diferente: A medida que nos aproximávamos da Cordilheira, a vegetação ia ficando mais rala, a terra mais árida e a quantidade de movimento de carros e transeuntes ia rareando.
O que crescia mesmo eram a inclinação! hehehe!
Como estávamos sempre subindo, adotamos um ritmo tranquilo…só no girinho, aproveitando muito pra bater papo ou simplesmente olhar em volta. E digo pra vocês, havia muito o que ser visto!
Cordilheiras ainda ao longe…mas a gente chega lá!
Davi terminando uma subidinha de respeito!
Artur no fim da descida, aproveitando o embalo
De repente, começaram a surgir as placas mais assustadoras do caminho:
Caminho de Montanha. Tome Cuidado. Gradiente Forte Prox. 55km.
A partir desse ponto, tínhamos certeza que não iríamos enfrentar Los Caracoles naquele dia…
Em algum ponto da estrada, perto da hora do almoço, encontramos uma pequena “birosca”. Paramos nela pra comer “huevos revueltos, pan e café” (ovos mexidos, pão e café).
Olha o naipe do Davi, de perninha cruzada…
Depois de reabastecer, pneus na estrada (como diria meu amigo Antigão).
Sobe, sobe, sobe…Só no Girinho! Afinal, já estava decidido que acamparíamos…não tínhamos pressa!
Com 25km pedalados, resolvemos dar outra paradinha pra tomar uma água.
Ficamos de papo um baita tempo, sentados no guard-rail da rodovia…e justo na hora que iríamos voltar pra estrada…pneu dianteiro da Só no Girinho estava murcho.
Bora lá…aproveitar pra trocar o pneu, inclusive.
Como meu pneu estava rasgado na lateral, aproveitei pra trocar pelo que comprei no primeiro dia de pedal.
Pneu/câmara trocados, vamos tocando…
Passamos por trechos bem bonitos, calmos e incrivelmente silenciosos…
Pedalar tranquilamente em vias tão bem pavimentas, com belíssimas paisagens e quase sem barulho de gente/carros/caminhões é sensacional.
Nem tudo foi subida! Acho que lá pelo km 29 pegamos um trechinho bem curto de decida…seguidos por mais uns 7km subindo suavemente, até uma espécie de barreira policial. Vários caminhões enfileirados, aguardando pra seguir…e logo mais à frente, mais uma daquelas placas que assustam:
E tome subida!
Não rodamos nem 4km dessa placa e fomos saudados por mais uma….do tipo que tira sorriso dos lábios, mas causa um pequeno tremor nas pernas…
Como assim “Alta Montanha Extrema”? Goddammit!
Paramos pra tirar várias fotos e já começamos a olhar em volta, procurando um bom lugar para acampar.
Essa atenção na estrada nos rendeu uma imagem bem “pitoresca”, uma placa até então desconhecida pra gente:
Salto Ornamental c/ Carro? Naaaaah!
Mais um pouco…cerca de 3km depois do “Trecho de Alta Montanha Extrema”, encontramos o que seria o início do tão aguardado “Los Caracoles”: O primeiro “cobertizo”, de um total de 6, se a memória não me falha.
Ao seu lado, uma estrada de emergência, sem asfalto, junto a uma espécie de “garganda”, com o Rio Aconcágua correndo lá embaixo.
Como cheguei primeiro, fiquei olhando…logo o Artur chegou e “leu” meus pensamentos…Não era muito tarde, perto de 16:30hrs, mas o frio já estava dando-nos boas-vindas. Ventava bastante, então a primeira preocupação era encontrar um lugar que desse alguma proteção contra esse vento.

Enquanto esperava o Davi chegar, desci a tal garganta pra ver se era possível acampar lá embaixo.
O terreno era bem acidentado, muitas pedras grandes e cascalho solto. Apesar disso, encontrei uma área relativamente plana e decidimos que ficaríamos ali mesmo.
Inclusive, o local tinha vestígios de uma fogueira, um grande pedaço de papelão, indicando que outros já utilizaram aquele lugar para acampar.
Cobertizo visto do fundo da garganta
A vista da nossa “varanda”
Amarramos as bikes na parte superior da garganta, escondidas de quem passava na estrada e logo depois começamos a descer as tralhas.
Bikes amarradas no topo da garganta, escondidas de quem passa na estrada.
Hora de montar as barracas!
Algo que me impressionou bastante durante a “inspeção” do lugar, foi ter visto flores nascendo em meios às pedras. Eu não sou especialista, mas Davi e eu concordamos que seriam orquídeas!

Além de varanda, tínhamos um pequeno jardim…

Com o acampamento montado, hora de pegar água para beber e cozinhar! O Rio Aconcágua nos cedeu sua água limpinha e gelada. Confiamos tanto que só nos preocupamos em passa-la por um filtro mecânico (um simples filtro de café, sabe?), para remover sólidos, como pedrinhas e afins.
Enchemos um dromedário de 4L e as caramanholas.

Depois disso, vamos começar o preparo do rango!!! O Artur insistiu em testar sua espiriteira de titânio+álcool isopropílico, mas o vento estava tão forte que demorou pra pegar, enquanto o Davi, com seu fogareiro à gás mandou ver rapidinho o rango dele e meu.
Se vocês leram o relato 1, devem lembrar que eu estava carregando, além de parte do suprimento de comida, uma caixa longa-vida de 2L de Vinho Santa Helena!
Pois bem…eis que esse foi o vinho que esquentou nosso fim de dia!
Olha o rango saindo…
No Menu: Macarrão com Atum e Vinho Santa Helena…ahahaha!
Esse vinho nos rendeu momentos divertidíssimos! Valeu muito a pena subir com ele na bagagem!
Depois do rango, ficamos um baita tempo bebendo, falando asneiras, até que a noite chegou, trazendo mais frio, inclusive.
Entramos nas barracas e rapidamente fomos vencidos pelo cansaço.
No meio da madrugada, eu acordei e, apesar do frio (algo entre  0 e -2ºc), não resisti a enorme vontade de ver o céu, que estava ricamente estrelado, apesar de muito claro.
Eu nunca tinha visto aquele tom de azul no céu em toda a minha vida. Aquilo me emocionou bastante.
Passei poucos minutos fora da barraca, mas o pouco tempo foi suficiente pra me maravilhar com a grandiosidade da natureza e para mais uma vez perceber o quão insignificante somos frente à ela.
Pode soar piegas, mas essa cena foi (pra mim) uma daquelas em que você para pra se perguntar sobre “o segredo da Vida, do Universo e tudo mais.”
Mesmo sem respostas, voltei pra dentro da barraca, feliz pra caramba, com a certeza de que ainda tinha muito pra eu me maravilhar nos próximos dias!
Stats:
Total Percorrido: 44,5km
Ride Time: 03:29’30”
Trip Time: 06:02′
Média: 12,8km/h
Máxima: 52,3km/h
Desnível: +1408/-564m
Baixas: Furo no pneu dianteiro do FabioTux.
Noite bem dormida no nosso acampamento, apesar do pequeno desconforto causado pelo terreno acidentado onde armamos as barracas.
Logo cedo, Davi já nos agraciou com um café quentinho, perfeito pra tirar a “friaca” da manhã, ainda sem sol, já que as montanhas em volta o encobriam.
Começamos a arrumar as tralhas, comer o pouco que tínhamos disponível (biscoito e salgadinho).
Como sempre, lá pelas 10hrs mais ou menos, estávamos de volta à estrada, prontos (ou quase) pro desafio de subir os tão sonhados “Caracoles”.
A brincadeira começou relativamente fácil. Tinha subidas longas, mas ainda não muito íngremes.
Não muito longe de onde saímos, chegamos em uma espécie de santuário da Defunta Correa.
Segundo a lenda a Sra. Maria Antonia Deolinda Correa resolveu seguir seu marido durante a guerra civil (1840/Argentina) junto com seu filho recém-nascido. Ao tentar atravessar a Província de San Juan, acabou ficando sem água e comida e morreu. Algum tempo depois, seu corpo foi encontrado por viajantes, porém o bebê permanecia vivo, supostamente graças ao leite que o corpo da mãe continuou produzindo, depois de morta.
Mesmo não sancionado pela Igreja Católica, a Defunta Correa conta com muitos devotos, que sempre deixam garrafas de água, além de objetos pessoais, pedindo ou agradecendo milagres.
Apesar de não ser devoto de nenhuma religião, deixei lá o pneu que tinha substituído no dia anterior, meio que para manter a tradição.
Também nos valemos de duas garrafas de água, já que a nossa estava para acabar…hehehehe
Eu, respeitosamente deixando meu pneu, como que pedindo proteção pro nosso grupo.
Deixamos o local e seguimos em frente. Com mais com menos de 10km rodados, chegamos ao início das 29 curvas que nos levariam a mais de 3200m de altitude, cruzando a fronteira do Chile com a Argentina.
Início dos Caracoles!
Olhando pra trás, depois de alguns metros…
Meio que instintivamente, fomos cada um em seu próprio ritmo, esperando os outros de tempos em tempos.
A medida que íamos subindo, o ar ia ficando mais frio, apesar do sol do meio dia.
Fotinho enquanto a galera não chega…
Tem mais…muito mais!
Davi e Artur, subindo Só no Girinho!
E estamos chegando perto da neve…
13º curva…tá quase na metade…
Caramba…já subimos isso tudo? Deve estar acabando….(ou não)
A subida não parecia ter fim. Todos os 3 esqueceram a quantidade de curvas até o topo. Houve momentos em que essa informação fez falta…mas na maioria do tempo foi bom, pois pudemos dosar com cuidado o esforço.
Mas pra nossa sorte, em alguns pontos, a subida dava uma “aliviada”, permitindo que fizéssemos menos esforço e conseguíssemos nos recuperar do cansaço, sem parar de pedalar.
Davi e Artur, aproveitando os poucas partes planas do percurso
Depois de muuuuuuito subir, chegamos a um trecho de uma estação de Ski. A fome estava grande, já que tudo o que restava de comida já tinha ido embora.
Um pouco pra frente dessa estação, encontramos dois cicloturistas que desceriam os Caracoles: Um rapaz de Mendoza (que não recordo o nome) e outro do Mexico, o Sr. Santiago, que estava na estrada há mais de 13 meses, conversando com uma dupla que monitora a via.
Foi bastante bacana ser recebido com gritos de incentivo da dupla cicloturísta. Ao chegar, os cumprimentei e começamos a papear, esperando meus dois amigos.
Assim que todos se reuniram, rolou uma ótima conversa e a confirmação de que faltava nada mais do que 1km pra chegarmos a fronteira!
Fotos, despedida, desejos de boa sorte/viagem, um mapa argentino de presente (¡gracias, Santiago!),  seguimos em frente!
Opa! Vamos sair do Chile logo mais!
Pois não é que, ao chegar a fronteira, encontramos 2 amigos que tinham feito o mesmo pedal alguns dias antes?
Silas e Célia, estavam esperando a Aduana liberar o seu ônibus! Feliz coincidência! Vamos documentar?!
Célia/Eu/Artur/Silas/Davi
Batemos um papo rápido, comemos na lanchonete, pegamos algumas provisões e seguimos em frente. Até a Aduana Argentina ainda teríamos de pedalar uns 15km +/-.
As três magrelas!
Em direção ao ultimo cobertizo!
Cobertizo gigante, mas com uma estrada auxiliar ao lado
Seguimos pela estrada auxiliar do cobertizo. Uma longa subida, com um visual incrível de neve, terra e rocha!
Ufa…parece que não há mais pra onde subir!
Vencida a subida, chegamos ao Túnel Internacional Cristo Redentor, construído por Argentinos e Chilenos na década de 80. Nesse trecho, fomos mais uma vez levados por um caminhão até o outro lado.
Depois de 3000m de túnel, continuamos a descer (um bocado, inclusive) até chegar a aduana argentina.
Agora tudo era mais fácil…boas decidas e retas dando boas-vindas ao território argentino.
Depois dessa sequencia, passamos em frente ao Parque Provincial Aconcágua e logo depois dele a tão esperada Aduana.
Mal passamos pela entrada do parque e já avistamos a Aduana Argentina.
Ficamos praticamente uma hora lá, aguardando todo o trâmite pra entrar oficialmente em Solo Argentino, até que finalmente pudemos descer, pouco mais de 1km, até Puente del Inca.
Um lugar muito pitoresco…pra não dizer feio!
Quem já jogou Final Fantasy VII deve lembrar do “Sector 1/Seventh Heaven”. Pois essa foi a primeira coisa que me veio à mente!
Resolvemos ficar num hostel chamado “La Vieja Estacion”, dirigido por um grupo de jovens escaladores (meio malucos, diga-se de pasagem).

Check-In, Compras e ufa…finalmente hora de descançar!

Olha o rango saindo!
Stats:
Total Percorrido: 48,0km
Ride Time: 03:59’07”
Trip Time: 08:32’34”
Média: 12,1km/h
Máxima: 53,3km/h
Desnível: +1931/-10714m
Baixas: Nenhuma

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