Bike pela Patagonia – Santiago a Puente del Inca

Chega o dia da partida… ansiedade  a mil…  a Cintia vai comigo ate o aeroporto de São Paulo.

Despachamos as bikes e os alforges.

Check-in feito nos despedimos, com aquele aperto no coração, sabendo que voltaria ao Brasil dentro algumas semanas.

……

Chegamos ao aeroporto de Santiago por volta da 01:00h da manha. Comida péssima servida a bordo do avião da TAM, ainda bem que levei um sanduíche vegetariano do BoogBurguer.

Esperamos ansiosos pela retirada das bikes.. depois de algum tempo elas aparecem na esteira.

Claro que as etiquetas de frágil não serviram para nada: meu paralamas dianteiro e traseiro quebrados, o bagageiro dianteiro da Surly do Artur tomou uma pancada tão grande que ate entortou a lateral. A lanterna traseira da Surly também quebrou, etc…

Enfim, a TAM ate pode ser uma companhia bike friendly, mas pelo jeito seus funcionários não devem saber disso….

Pegamos as bikes e as tralhas e fomos para uma parte mais reservada do aeroporto, já na área externa.

Vagarosamente enchemos os pneus, montamos os alforges e equipamos as bicicletas.

O cansaço fala mais alto e por volta das 02:30h já estávamos dormindo nas poltronas do aeroporto.

Acordamos por volta das 07:00h, ligamos o GPS e colocamos a rota ate o MallSports, um grande shopping dedicado aos esportes.

Começamos a pedalar em um ritmo bem tranqüilo, na media de uns 20Km/h pela Av. Costanera Norte. Depois de uns 10 ou 15 Km pedalados aparece um carro da “ Policia”  (na verdade um carro da concessionária) e nos expulsa da avenida, dizendo que não podíamos andar de bicicleta por ali etc…

Pelo GPS vimos que havia possibilidade de irmos margeando a tal da Costanera Norte e assim entramos em uma espécie de subúrbio (para não dizer “ favela” ).

Logo encontramos uma Kombi no qual havia para venda empanadas, etc… pedimos um café quente (estávamos com frio e fome) e batemos um pouco de papo com o pessoal (que olhava admirado para nos com as bikes).  O dia começa bem: não quiseram cobrar o café e ainda deram uma dica de como fugir da próxima comunidade (que era inimiga da comunidade onde estávamos e assim poderíamos ter problemas).

Passamos pelo centro da cidade e demoramos um tanto ate finalmente conseguir acessar a avenida Las Condes, em uma área bem mais afastada do centro da cidade.

Na loja da AndesGear compro uma barraca para mim: uma Ferrino UltraLight de apenas 1Kg por pessoa, que apesar de ser uma barraca super compacta para 2 pessoas, achei que era uma ótima opção. Compro também um bujao de gás para o fogareiro.

Nos encontramos com o Fabio Tux, que estava hospedado na casa dos seus amigos Jonatas e Maria Jose.

Eu acabo dormindo (de falta de sono mesmo) na mesa do restaurante e finalmente levantamos e começamos a pedalar de volta para a cidade.

Pedalamos um total de uns 60Km e finalmente por volta da 19:00h chegamos na casa do Eric Pitzer, um americano que mudou de vida e agora esta estabelecido em Santiago.

Saimos para tomar um café e comer alguma coisa com ele e seus amigos. Voltamos bem tarde (quase 00:00h), esticamos os isolantes e os sacos de dormir no chão da sala e desligamos…

Segundo dia – Los Andes

No dia seguinte, acordamos cedo e tomamos um banho de gato ( frio, pois não sabíamos como ligar o aquecedor ou este estava com algum problema), tomamos um rápido café e montamos as bikes.

Por volta das 10:00h o Tux finalmente nos encontra (ele havia se atrasado por conta de uma confusão que Jonatas/Maria José fizeram com o fuso-horario chileno) e começamos a pedalar.

Menos de 2Km pedalados e o Artur passa em cima de um caco de vidro, cortando o pneu e a camara. Trocamos a camara, compramos algumas coisas em um supermercado, passamos em uma farmácia para comprar combustível (álcool) para o o fogareiro do Artur e recomeçamos a pedalar.

Seguindo cegamente as orientações do GPS pouco-a-pouco nos afastamos do centro urbano e as ruas vão se tornando mais tranqüilas.

Encontramos uma bicicletaria de bairro, já quase na saída da cidade, e o Tux compra um pneu novo (seu pneu estava rasgado na lateral) e eu comprou uma segunda lanterna traseira (do tipo Frog, de um único LED).

Por volta das 14:00h paramos para almoçar em um ponto de ônibus (no meio do nada), nosso almoço foi pão com queijo, biscoitos e amendoim.

Passamos por varias vinícolas.

Logo começa uma subida infernal, coisa de uns 7 ou 10Km e chegamos a um túnel, onde havia diversas placas indicando que não era permitida a presença de pedestres ou bikes. Estávamos super medrosos de nos barrarem ou nos multarem…

Mas que nada! Aparece um funcionário super simpático com uma camionete, onde colocamos as bikes e ele atravessa o túnel com a gente!

Nossos medos acabaram: o funcionário explica que os túneis são estreitos e perigosos e por isso eles ficam ali, na entrada do túnel, para passar os eventuais pedestres e ciclistas que apareçam, e claro, oferecer suporte para os veículos motorizados, cuidar do túnel, etc…

Depois do túnel iniciamos uma forte descida (passando ao lado de um casino) em direção a cidade de Los Andes.

Tomamos informação na entrada da cidade e fomos para uma hospedaria+restaurante de uns portugueses (Arunco, na Av. Republica Argentina, 6000 pesos chilenos por pessoa) onde tomamos finalmente nosso primeiro banho quente desde que saimos do Brasil, jantamos e comemoramos os 80Km de pedal. Fomos dormir por volta das 23:30h.

No dia seguinte acordamos tarde, por volta das 08:30h. Comemos biscoitos com suco de laranja e logo começamos a pedalar.

Subidas fortes e constantes, o dia não “ rendeu”  nada e chegamos depois de bastante esforço, por volta das 17:00h, em uma região de pendentes mais inclinadas.

Em virtude do horário decidimos parar e montar as barracas, comer e descansar. Paramos ao lado de um túnel, e escondemos as bikes em um barranco próximo e montamos as barracas do lado do rio Aconcagua.

Pedalamos apenas 45Km nesse dia, que inclusive teve um pneu furado (Tux).

Fez bastante frio durante a noite, próximo de 0 grau.

Terceiro e Quarto dia – Os Caracoles

No terceiro dia acordamos as 07:45h e tomamos cha quente, café e biscoitos.

Apos poucos minutos pedalados chegamos aos pés dos “ caracoles” . As placas de transito assustam com dizeres do tipo: “ ruta de alta Montana extrema. Gradiente fuerte próximos 40Km” .

A subida dos “ caracoles”  foi infernal, certamente esta entre as coisas mais duras que fiz ate hoje.  O coração batia em um ritmo frenético, as pernas e o peito queimavam pelo esforço físico brutal.

Nos piores trechos eu pedalava uns 300m e tinha que parar para recuperar o fôlego.

Fiz pelo menos uns 25Km usando a coroa 28 e o cassete 32…. acredito que a inclinação mais ou menos constante seja de seus 30 ou 35 graus.

Túneis, pontes, neve, frio, vento…

Finalmente, como que em um sonho, as subidas acabam e aparece a fronteira chilena!

Encontramos o Silas e a Celia na fronteira do Chile, uma coincidencia impressionante visto que eles haviam feito o mesmo caminho (de bike) alguns dias antes de nos…

Um caminhão nos atravessa pelo túnel “ Cristo Redentor” , túnel estreito que corta uma montanha e tem quase 3,5Km de comprimento.

Passamos pela entrada do Parque Provincial Aconcagua e mais alguns poucos kilometros entramos oficialmente na Argentina, onde mofamos por 45minutos na fronteira (mais frio).

As 19:00h finalmente chegamos em Puente del Inca.

Fomos ao hostel “La Vieja Estacion”  onde decidimos ficar descansando todo o dia seguinte. O hostel nos custa 60 pesos argentinos por noite/pessoa.

Fizemos um macarrão e ovos e vamos dormir.

Pedalamos nesse dia uns 48Km.

Quinto dia e Sexto dia – Puente del Inca

No quinto dia acordamos as 07:30h.

Logo demos pela falta da camera GoPro do Artur. Ficamos sem saber se ela nos foi furtada durante a noite no Hostel ou se eventualmente ela caiu da bolsa de guidão durante o downhill do dia anterior.

Uma merda o sumiço dessa camera. Muito chato.

Como o dia estava separado para descanso, fizemos uma revisão geral nas bikes, apertando parafusos, lubrificando algumas partes, etc…  Eu aproveitei também para lavar minha toalha de banho, uma cueca e um par de meias.

…..

Escrevo este relato no dia 04/10/2012, as 21:20h no Hostel “ La Vieja Estacion”  em Puente del Inca.

Amanha vamos acordar cedo e nosso destino e a cidade de Uspallata, distante (pelo GPS) apenas 80Km de onde estamos.

Agora vou fazer um macarrão para jantarmos e dormirmos. Tudo já esta pronto para amanha.

…….

Update: Estamos em Uspallata, a apenas uns 100Km de Mendoza. Estamos em um camping municipal.

 

Bike pela Patagônia – Preparação

Tenho um grande amigo, o Artur Vieira, que acabou me “convencendo” a sair em uma longa cicloviagem com ele…

Nossa intenção é descermos a partir de Santiago do Chile até a Patagônia Norte, sendo que a primeira parte envolve a subida do temido “caracoles”, na fronteira entre o Chile e a Argentina.

Iremos “descansar” um pouco em Mendoza e na sequência descer rumo à região dos lagos.

Minha bela TREK SU 2.0 preparada para o cicloturismo
cassete 11X34 (Shimano HG-30-8I)
pedivela 22X32X44
corrente UG51
Freios Mecânicos Shimano Disc
Cubos CenterLock
Pedal SPD Shimano + adaptador plástico para usar “com tênis”
Canote com amortecedor da RockShox
Mesa regulável
manoplas e bar ends ergonômicos e em gel
paralamas Zéfal
bagageiro TopPeak + Alforges da Curtlo (Obrigado Artur !!!)
Selim o “mais confortável” que testei e usei já um montão
Bolsa de Guidão
Pneus Kenda Kwest de “Alta Pressão” (120PSI) e vou rodar com 1.25″… claro que com fita anti-furo…
alforges, etc..

 

 

Em princípio as coisas que estarei levando (para uma viagem de mais de um mês) são:

Bicicleta

  1. Estojo remendo vipal + uns 2 tubos de cola extra + Manchão
  2. Camara ar reserva (quantas ?!)
  3. Espátulas
  4. Chave multi-função, alicate
  5. Pedaço de arame
  6. Fitas hellerman de plástico
  7. Bomba de ar portatil e bomba de ar “grande”
  8. Pisca traseiro
  9. Headlamp
  10. Capacete
  11. Luvas de bike e luvas de frio
  12. Caramanholas (duas)
  13. Lubrificante para a corrente
  14. Corrente / elo reserva / elo extra
  15. Adaptador válvula presta-schareder
  16. Colete refletivo
  17. Refletivos na bike (bagageiro)
  18. Corrente/cabo de aço com chave
  19. Chave fixa para retirar os pedais
  20. Dois ou três raios reservas
  21. Bagageiro dianteiro (enquanto escrevo este post não havia conseguido comprar um bagageiro dianteiro para usar com a furação original da minha bike, vou acabar comprando um bagageiro dianteiro “safado”, daqueles que são presos na furação do v-brake, e fazer alguma gambiarra adaptação técnica)

Pessoais

  1. MP3 / pilhas extras
  2. Camera fotográfica+cabos+pilha+cartão de memória
  3. Passaporte + dinheiro + Cartão crédito / cartão débito
  4. Manta térmica de sobrevivencia
  5. Dromedário
  6. Sacos estanques
  7. Protetor auditivo / tapa olhos
  8. Óculos escuros / Óculos transparentes
  9. Vaselina / “hidratante”  / Protetor solar

Diversos 

  1. 2 pares de meia curta
  2. 4 pares de meias longas
  3. 2 camisetas manga longa
  4. Bermuda e calça ciclista
  5. Segunda pele , calça / blusa
  6. Blusa de polartec
  7. Buff (dois ou três) / gorro de lã
  8. Anorak
  9. 1 calça bermuda da Hard Adventure
  10. Saco de dormir
  11. Isolante térmico
  12. Barraca 1 pessoa (comprar em Santiago)
  13. Analgésicos e afins (dorflex / tandrilax) Diclofenaco / ibuprofeno / Colírios (hipromelose e antibiotico)
  14. Micropore / esparadrapo
  15. Papel higienico / lenço umedecido
  16. Bcaa / cafeína
  17. Sabonete / toalha de banho / desodorante / escova de dentes / pasta de dente
  18. Tênis ?? chinelo ou papete ?
  19. Elásticos
  20. Vitamina C
  21. Fogareiro a gás, prato, caneca, talher, pote ziploc
  22. Cortador de unhas pequeno
  23. Espelhinho
  24. Pinça (duas)
  25. Canivete suiço
  26. Hidroesteril
  27. Filtro mecânico para água (filtro de café)
  28. Pochete equinox
  29. Mochila de uns 30 litros.
  30. Fitas de nylon (para amarrações diversas)

Claro que essa relação de itens não é definitiva, e certamente durante a viagem descobrirei que um item está faltando e outro não era necessário ter levado, enfim.. a vida é assim :-)

Estou fazendo um seguro de vida/saúde internacional, que oferece cobertura para cicloviagens com o pessoal da www.worldnomads.com, e na medida do possível penso em dormir algumas noites com o pessoal do www.couchsurfing.org/

De forma bem grosseira, o trajeto é mais ou menos esse:  goo.gl/maps/ED263, digo de forma grosseira pois já temos a dica de evitarmos ao máximo a ruta 40, em virtude do intenso tráfego de veículos.

O primeiro trecho começa em Santiago/CHL e termina em Mendoza/ARG, nesse percurso de pouco mais de 360km de distância acumularemos uma altimetria (subida) de quase  7000m… altimetria essa quase toda concentrada nos “caracoles’….

Os caracoles possuem pouco mais de 30Km de extensão (e uns 700m de desnível), quase sempre com neve.. bom a imagem acima diz tudo!

Entre as coisas legais que estou levando, acho que vale a pena citar:

  • sacos estanques da www.seatosummit.com.br/ , fundamentais para garantir que as coisas permaneçam secas durante uma eventual chuva
  • uma toalha de banho super compacta, da mesma marca. Essa toalha é de microfibra e é absurdamente pequena !
  • um saco organizador (também da www.seatosummit.com.br/) para colocar as coisas pequenas dentro do alforge e assim facilitar a vida :-)
  • um talher 3 em 1 (hehehe, também da www.seatosummit.com.br/), assim evito ter que levar 3 peças distintas !
  • meias de primaloft/coolmax. Vou levar uma meia de primaloft da www.lorpen.com.br  e também algumas meias de coolmax.

Confiram as fotos:

Então é isso…  à medida em que eu for tendo notícias pretendo atualizar esse blog :-)

Recomendo ainda o blog do Artur Vieira:  pedalamerica.wordpress.com/

e o blog do Fábio Tux: fabiotux.blogspot.com.br/

O Fábio irá pedalar conosco durante uns 10 dias.

Por último, mas não menos importante, reproduzo o texto da Luisa, e faço destas minha palavras finais:

cicloterras.wordpress.com/2011/06/14/via…

Nossa viagem tem, independente de outros objetivos, um caráter político. Para nós isso parece bastante claro -  quase não sentimos necessidade de explicitá-lo – e para uma considerável parte do pessoal com o qual convivemos, também. Por isso, fiquei um tanto desconfiada quando o Gil falou que, se não deixarmos bem claro para as pessoas, elas simplesmente não vão entender. Não vão entender? Como assim? A resposta veio logo em seguida, quando começamos a espalhar mais a notícia. Agora, atenta a essa questão, percebia como a maior parte das pessoas encara nossa viagem simplesmente como uma expedição aventureira, um desafio físico. Ela é isso, também; mas não só.

Existem várias coisas aí que colocam em questão o modo de vida que está em voga, e no centro delas está a bicicleta. Quando se escolhe a bicicleta como meio de transporte, o modelo carrista, consumidor de energia, poluente e causador de mortes, já está sendo questionado, por mais que uma significativa parcela desses ciclistas não tenha intenção ou consciência disso. Esse é o primeiro ponto e que não é exclusividade dos ciclistas viajantes, mas comum àqueles que usam a bici nas ruas da cidade. O que pretendo aqui, porém, não é discorrer sobre esse questionamento político, não por ele ser menos importante, mas porque já vem sendo discutido em outras instâncias, certamente por se tratar de um aspecto prático, que afeta (e revoluciona) o cotidiano das pessoas.

O que eu quero falar aqui é de tempo, da passagem do tempo. Pedalar é desacelerar: passar mais tempo atravessando uma distância do que se levaria utilizando meios de transporte tradicionais. O que isso significa em uma viagem de bicicleta? Em uma visão rasa diria-se que a viagem demora mais. Mas nesse comentário estão implícitas duas noções que a bicicleta coloca em questão: a noção de viagem e a noção de tempo – sendo a primeira resultado quase imediato da segunda.

Na sociedade que nos cerca, o tempo possui um valor de mercado.Tanto se cobra mais por mercadorias que demoram mais tempo para serem produzidas, quanto o pagamento pela força de trabalho é feito, na maior parte das vezes, através de uma operação matemática que se baseia no número de horas trabalhadas. De uma maneira semelhante, o ensino é dividido em horas/aula, o colégio separado em anos e nas universidades se fala em carga horária total. A soma de todas essas unidades de tempo de estudo nos dá um poderoso indicativo da classe social, salário e poder de consumo de um indivíduo. Não é a toa que a eficiência entra no jogo:  é preciso aproveitar o tempo ao máximo, cumprir com a máxima eficácia todas as etapas, pois no tempo está a chave para o dinheiro e o dinheiro nos dá acesso ao consumo, que é a expressão do sucesso. Nesse pensamento, portanto, o tempo deve ser economizado para que seja gasto em meios de acesso ao consumo. Economizá-lo significa reduzi-lo nas atividades que não contribuem para o resultado esperado, e é aí que entra o deslocamento.

Se entendemos que o deslocamento é perda de tempo, já que essas horas não serão acrescentadas ao nosso valor de mercado, viajar só tem sentido se existe um interesse, seja ele qual for, em estar em um outro lugar específico. Trocando em miúdos, viajar, nessa lógica, significa chegar em algum lugar, e uma viagem eficaz é aquela que demora menos tempo no deslocamento.

Viajar de bicicleta – especialmente quando a viagem é longa, como essa que faremos – questiona essa noção de tempo, porque estamos, já de saída, “jogando fora” uma quantidade de tempo absurda. E não me refiro aqui somente ao tempo que será levado com as pedaladas, mas principalmente o tempo potencial que deixaremos para traz – eu, por exemplo, deixarei a universidade e o trabalho para depois, assim que colocar a bici na estrada. Do mesmo modo, a noção de viagem é colocada em questão: sua importância deixa de residir no ponto de chegada e passa a abarcar o percurso em todas as suas partes e, também, como um conjunto.

O que ainda falta é dizer qual o significado, então, de tempo, se jogamos fora esse que estamos acostumados. Bem… Isso eu ainda não sei…

Educação X Violência

Ontem vi uma cena que com a qual passei algumas horas refletindo…

Eu estava fazendo um trabalho braçal na casa de um vizinho, e vi que do outro lado da rua, havia duas crianças brincando.

Dois irmãos (assim estou supondo), um menino e uma menina, se divertiam com seus respectivos jogos e brinquedos infantis na sombra de uma garagem.

Em um determinado momento, ouvi alguns gritos e choros, e ao olhar na direção dos sons, vejo o menino, que deve ter algo como uns 5 ou 6 anos, batendo com um cabo de vassoura na menina que devia ter uns 3 ou no máximo 4 anos (e que suponho seja sua a irmã).

A menina gritava e chorava, e o menino exercia sua violência.

Rapidamente aparece um homem (pela idade suponho que era o avô) e intercede na cena.

A parte surreal começa agora, com o diálogo aproximado que eu ouvi:

 

A menina fala algo assim:

o fulano me bateu….”  (intercalado por choros)

O homem (o avô ?) replica:

fulano, porque você está batendo na fulana ?

E o menino,  por sua vez, dispara a resposta:

estou dando educação para ela !

 

Notem a construção da frase: estou dando educação para ela !

Qual o tipo de educação esta criança estaria recebendo para associar a “pancada” com “educação” ?

Ao refletir a respeito do que acabara de presenciar, apenas posso imaginar que no núcleo familiar do menino,  palmadas, surras e espancamento seja algo trivial ou corriqueiro.

E no imaginário (ou na visão de mundo desta criança) a violência física está associada à “educação”.

E o que esta criança “aprendeu” com esta “educação” baseada na violência ?

Não é preciso ser nenhum gênio para deduzir que o que esta criança aprendeu apanhando foi apenas que  problemas, erros, discordâncias e desavenças podem ser resolvidas na “base da pancada”.

E fico imaginando esta criança resolvendo seus problemas com os coleguinhas na escola (será que já frequenta alguma ?), e logo logo será um púbere que terá aprendido o quê ? que os problemas podem ser resolvidos com violência ?

Ainda refletindo, qual seria a diferença entre palmadas, surras ou espancamento ?

Sinceramente acredito que não há diferença: para a criança, a violência física atinge profundamente em seus sentimentos e na formação do seu caráter: A figura materna/paterna, que é justamente a figura do protetor e do amparo, se torna para o indefeso, a figura do opressor.

Como crescer nutrindo amor ou respeito por aquele que oprime ?

Se todas as pessoas têm direito à proteção de sua integridade física, e as crianças também são pessoas, porque é permitido (ou tolerado) a agressão física contra crianças ?

Os pais ou responsáveis legais possuem uma espécie de “direito divino” sobre a criança ?  Direito sobre sua vida ? Crianças são objeto ou propriedade ? Claro que não !

Jan Hunt, psicóloga diretora do “The Natural Child Project“  elenca os principais motivos para não utilizar violência física contra crianças:

  1. Bater nas crianças ensina-as a também se tornarem agressoras. Atualmente existem muitas pesquisas mostrando a relação direta entre o castigo corporal na infância e comportamentos agressivos ou violentos na adolescência e idade adulta. Quase todos os criminosos mais perigosos foram vítimas de constantes ameaças e castigos na infância. Para o bem ou para o mal, faz parte do projeto da natureza que as crianças aprendam pela observação e imitação das atitudes dos pais. Portanto é responsabilidade dos pais dar o exemplo de empatia e sensatez.
  2. O castigo físico passa a mensagem injusta e nociva de que “o mais forte sempre tem razão”, de que é permitido ferir alguém desde que seja menor e menos poderoso que você. Assim a criança conclui que é permitido maltratar crianças menores ou mais novas. Quando for adulto ele não vai ser capaz de sentir muita compaixão pelos menos afortunados e vai temer os mais poderosos. Isso vai impedir o estabelecimento de relacionamentos significativos essenciais para uma vida emocional satisfatória.
  3. Uma vez que as crianças aprendem pelo exemplo dos pais, o castigo físico ensina que bater é um modo correto de exprimir sentimentos e solucionar problemas. Se uma criança não vê seus pais resolverem os problemas de um modo criativo e humano, dificilmente aprenderá a fazer isso. Por isso os erros dos pais freqüentemente se repetem na geração seguinte.
  4. “Poupe o bastão e estrague a criança”, embora popular, é uma interpretação errônea do ensinamento bíblico. Embora o “bastão” seja mencionado várias vezes na Bíblia, somente no Livro dos Provérbios essa palavra é usada em relação à criação de filhos. Na verdade os métodos severos de disciplina do Rei Salomão fizeram de seu filho Robão um ditador tirânico e opressor que escapou por pouco de ser apedrejado até a morte por sua crueldade. A Bíblia não apóia a disciplina severa, a não ser nos Provérbios de Salomão. Jesus via as crianças próximas de Deus e pedia amor, jamais castigo.
  5. O castigo interfere com o vínculo entre a mãe ou o pai e o filho, uma vez que não é da natureza humana amar alguém que nos fere. O verdadeiro espírito de colaboração que todos os pais desejam só pode surgir de um vínculo forte, embasado em sentimentos mútuos de amor e respeito. O castigo, mesmo quando parece funcionar, origina um comportamento superficial, embasado no medo, que só persiste enquanto a criança não tiver idade para reagir. A cooperação baseada no respeito, ao contrário, dura para sempre e garante muitos anos de alegria aos pais e aos filhos.
  6. Muitos pais não aprenderam na própria infância que existe um jeito mais construtivo de se relacionar com as crianças. Quando o castigo não atinge os objetivos almejados e os pais não conhecem outras alternativas, os maus-tratos podem se tornar cada vez mais freqüentes e perigosos para a criança.
  7. A raiva e a frustração que a criança não se arrisca a expressar abertamente ficam guardadas; adolescentes revoltados não caem do céu. A raiva acumulada ao longo dos anos pode chocar os pais quando o filho sentir que já tem forças para expressá-la. O castigo pode resultar em “bom comportamento” nos primeiros anos, mas sempre a um alto preço, a ser pago pelos pais e pela sociedade em geral quando a criança atingir a adolescência e juventude.
  8. Bater nas nádegas, uma zona erógena na infância, pode criar na mente da criança uma associação entre dor e prazer sexual e levar a dificuldades na vida adulta. Anúncios em jornais alternativos procurando chicotadas atestam as tristes conseqüências dessa confusão entre dor e prazer. Se a criança só recebe a atenção dos pais quando é castigada, os conceitos de dor e prazer se confundem ainda mais em sua mente. Uma criança nessa situação vai ter uma baixa auto-estima, acreditando não merecer nada melhor. Mesmo surras relativamente brandas podem ameaçar a integridade física. Golpes na região lombar transmitem ondas de choque ao longo de toda a coluna e podem causar lesões. A alta prevalência de dores lombares nos adultos de nossa sociedade talvez tenha origem nos castigos da infância. Crianças já ficaram paralíticas por lesões de nervos em uma surra, e outras morreram por complicações mal esclarecidas depois de uma surra de vara.
  9. Em muitos casos do assim chamado “mau comportamento” a criança está simplesmente reagindo da única forma que é capaz, dadas sua idade e experiência, a um descaso com suas necessidades básicas. Entre essas necessidades estão: sono e alimentação adequados, detecção e tratamento de alergias, ar puro, exercícios físicos e liberdade suficiente para explorar o mundo a sua volta. Mas sua maior necessidade é a atenção integral de seus pais, que com freqüência estão distraídos demais com seus próprios problemas e preocupações para tratar seus filhos com paciência e empatia. É evidente que é um erro e uma injustiça castigar uma criança por reagir de modo natural à negligência de suas necessidades. Por essa razão, o castigo não só é ineficaz a longo prazo, como também injusto.
  10. O castigo dificulta à criança aprender a resolver conflitos de um modo eficiente e humano. Uma criança castigada fica ocupada com sua raiva e fantasias de vingança e perde a oportunidade de aprender um modo mais eficiente de resolver o problema em questão. Assim, uma criança castigada aprende pouco sobre como resolver ou evitar situações semelhantes no futuro. Explicações delicadas e uma base sólida de amor e respeito são a única forma de se obter atitudes louváveis apoiadas em valores profundos em vez de “bom comportamento” superficial motivado apenas pelo medo.

 

E com respeito ao item 2 citado acima, eu acrescento que é assim que são formados adultos perturbados, que quando da direção de um carro não respeitam os indefesos (ciclistas, pedestres, etc…) pois é claro, são mais fortes e por isso possuem um “direito maior”, são os mesmos adultos que acham normal “bater para educar” um cachorro (ou qualquer outra animal), etc…

Digo mais: sou capaz de palpitar que a violência infantil está no cerne da “síndrome do pequeno poder” (não sabe o que é isso ? dá uma olhada no link ! Com certeza você conhece e tem contato com pessoas assim !)

Aqui no Brasil temos a “lei da palmada”, aprovada pela câmara dos deputados em 2011 (pt.wikipedia.org/wiki/Lei_da_Palmada ), que busca preservar o direito à integridade física da criança e do adolescente.

E com respeito a esta lei, sugiro a leitura do breve artigo em : www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/11…

É isso… detesto eufemismos:  para mim, palmada = violência

Sabem o que penso a respeito da violência infantil  ?

  • Ela não educa, não nutre amor, não nutre respeito nem compreensão.
  • Forma futuros cidadãos desequilibrados e que acreditam que o “mais forte” têm razão.

E você, o que pensa disso ?

Viagens a países em desenvolvimento (3o. mundo) – Tratando de parasitoses…

 

Qualquer um que viaje para um país ou região em desenvolvimento, onde a higiene, assim digamos, não é o “forte”, possui grandes chances de voltar para casa com amigos indesejáveis dentro do corpo…
São parasitas (vermes e protozoários) que realmente fazem o seu portador “reinar” no “trono” de forma bem desagradável…
Por falar nisso, você sabe como purificar sua água durantes as viagens ? Confira o artigo em :  www.blog.marski.org/?p=2090
Enfim, na maior parte das vezes esses são problemas transitórios conhecidos como “diarréia dos viajantes”   ( www.manualmerck.net/?id=132&cn=1116   ), entretanto, as chances do indivíduo ter tido  contato com agentes patológicos são grandes… a lista é extensa, mas os mais comuns seriam:
  1. criptospodium   ( www.mayoclinic.com/health/cryptosporidium/DS00907 )
  2. vírus da hepatite A  (  pt.wikipedia.org/wiki/Hepatite_A  )
  3. giárdia lamblia ( www.cve.saude.sp.gov.br/htm/hidrica/Giardiase.htm ) 
  4. ameba hystolística  ( www.abcdasaude.com.br/artigo.php?20 )
  5. vermes cilíndricos e/ou achatados (helmintos e nematelmintos)
Os patógenos 1 e 2 o organismo consegue lidar de forma espontânea, curando-se sozinho…  (ou não…rsrsrsrsrs), já os itens 3 a 5 requerem uma atenção especial.
A questão é que no caso deles (itens 3 e 4) mesmo que a “fase” da diarréia já tenha terminado, a pessoa infectada continua com o agente (verme/protozoário) dentro do corpo, e isso pode permanecer ali por vários anos (ou a vida toda) sem que a pessoa “apresente” maiores sintomas…  Ou melhor, a pessoa até apresenta os sintomas (fraqueza, sono, palidez, anemia, etc…) mas ela acaba se acostumando com o quadro e não se dá conta…
O exame para detecção destes parasitas é o famoso “exame de fezes”, entretanto, esse *não* é um exame muito confiável, apresentando um alto índice de resultados “falso negativo”, isso é, a pessoa está infectada e o exame não apresenta esse resultado…
Como o tratamento para os itens 3 e 4 é o mesmo, e como virtualmente não possui contra-indicações, é muito melhor simplesmente fazer um tratamento profilático (preventivo)…
Enfim, o tratamento de primeira escolha para amebíase e/ou giardíase é tomar (em dose única) 2 comprimidos de 1000mg cada de Secnidazol (não precisa de receita).   Para os vermes (item 5) o tratamento é tomar, também em dose única, 400mg de Albendazol.
Tomando-se esses dois remédios não há necessidade de se fazer mais nada…
Como efeito colateral a pessoa “pode” ter uma leve dor de cabeça, constipação intestinal, um gosto metálico na boca… e como restrição, a pessoa *não* pode estar grávida *nem amamentando* e *não*  pode ingerir álcool durante 4 dias após tomar os remédios…
Uma outra excelente opção (essa foi uma dica de três amigos médicos diferentes !) é usar o Annita (Nome comercial da Nitazoxanida), esse princípio ativo parece inibir uma enzima fundamental à vida tanto de protozoários, quanto de helmintos (vermes) e até mesmo de criptospodiridiuns ! Ou seja, é um remédio tipo “2 em 1″. Seu grande incoveniente é o preço (mais de R$ 50,00).
É isso !
Qualquer dúvida adicional não bobeiem e procurem um médico !  Afinal de contas ninguém quer que uma eventual ameba “migre” do intestino para o fígado causando problemas e danos maiores, não é mesmo ?
Abraços e ótima semana a todos,
Para saber mais:

Guia de Montanha

Uma lhama no carro? em Nova York? É... muita gente se sente tão deslocada no ambiente de montanha quanto essa lhama aí...

Coloco aqui um email que enviei para os participantes da trip que irá começar em breve nos Alpes e depois na Cordilheira Real, na Bolívia .  São algumas divagações que fiz sobre o papel de guia de montanha, sobre segurança, riscos objetivos e subjetivos… acho que vale a pena compartilhar com mais gente.

**************

Tenho certeza que todos estão ansiosos com a proximidade da viagem, com as expectativas e anseios que são formados em nosso imaginário.

Iremos conversar muito e interagir bastante durante a expedição, entretanto, como guia de montanha é minha obrigação informar a cada um dos participantes e amigos um pouco sobre a minha filosofia de trabalho.

Eu “ofereço” não apenas um “cume” ou “via de escalada” mas o meu melhor possível relacionado à vivência com a cultura local, tentando proporcionar uma boa interação não apenas entre todos nós, mas principalmente com as pessoas com quem iremos nos relacionar.

Essa abordagem nos permite conhecer melhor uns aos outros, e mais do que isso, me permite conhecer as dificuldades e é claro, capacidades de cada um. Assim é possível personalizar a experiência da escalada da melhor forma possível (para alguns isso será facilitado, para outros certamente pedirei que auxiliem em tarefas do cotidiano).

A partir do momento em que começarmos a expedição,  não há como garantir que chegaremos ao cume de qualquer montanha. Claro que farei o melhor possível, e utilizarei de todos os recursos seguros possíveis, entretanto, as pessoas são diferentes (física e psicologicamente) e alguns talvez não se sintam seguros para continuar, ou outros, apesar de se sentirem seguros, não estarão com capacidade física para tal.

Ao contrário da quase totalidade das outras atividades físicas, a escalada em grandes montanhas desafia a sua resistência física ao limite da exaustão, pressionando constantemente sua determinação mental em continuar (e levando-o a pensar: “o que eu estou fazendo aqui ?”), entretanto, logo após entrarmos no glaciar de qualquer grande montanha, ou de atravessarmos o circo glaciario, a zona de debris, deixamos de ter opções realmente seguras na montanha.

Estaremos longe do nosso acampamento base, longe de um refúgio seguro, longe de qualquer espécie de conforto – e quando você chegar à exaustão (note que não estou dizendo que “se” você chegar à exaustão, e sim “quando”, pois isso é uma certeza do que irá acontecer…), quando você chegar à exaustão, simplesmente desistir, parar e resolver descansar “um pouco” não é uma opção possível. Nesse momento será necessário encontrar forças em algum lugar do seu corpo e continuar até retornarmos em segurança ao nosso abrigo no acampamento base (ou refúgio de montanha). Apenas assim você não colocará sua segurança física e a dos demais participantes em risco.

A escalada de qualquer montanha apenas termina quando retornarmos ao acampamento base.

Chegar ao cume é apenas a metade do caminho. Você precisa ter determinação e energia para continuar em atividade, com atenção e concentração, durante todo o percurso de volta.Na verdade, usualmente despenderemos várias horas para chegar à um local seguro após o cume de qualquer montanha.

Estaremos muito fora da nossa “zona de conforto”.

Vá pensando nisso: Cansaço é quando sua mente desiste antes que o seu corpo.

Quando você achar que não aguenta mais, que não é capaz de dar mais um passo, respire fundo, esvazie sua mente dos problemas e preocupações, e foque-se com toda a determinação e concentração mental em simplesmente economizar o máximo possível de energia e força em seus movimentos, e com clareza e suavidade, continuar escalando, continuar caminhando, continuar em atividade.

Quando você me contrata como guia de montanha, de certa forma você está confiando a sua segurança e integridade física aos meus cuidados, experiência prévia, capacidade técnica e conhecimento específico. Em outras palavras: constantemente estarei avaliando cada um de vocês com respeito à aclimatação, às dificuldades e capacidades de cada um, tentando proporcionar a melhor experiência possível.

Qualquer guia de montanha certificado possui grandes conhecimentos e capacidade em termos de resgate e gerenciamento dos riscos objetivos. Por sua vez, há alguns elementos (riscos) subjetivos com os quais simplesmente não há como lidar: alterações climáticas, instabilidades políticas (nos países de 3º. Mundo), problemas de saúde inesperados (vá que você tenha uma apendicite ? uma crise renal ? É por isso que um seguro de saúde internacional é importante – sugiro o : www.worldnomads.com)

Portanto, é minha função minimizar ou excluir as situações e atitudes que envolvam riscos objetivos e na medida do possível, antecipar-me aos riscos subjetivos. É por isso que considero importante minimizar os riscos objetivos: aclimatação, preparação física, ótima saúde, equipamento adequado, roupas adequadas – todos estes itens fazem parte dos arsenal de recursos que podemos dispor (e possuir) para contornarmos os riscos objetivos. Para os riscos subjetivos, os problemas que não podemos prever ou antecipar – tais como um queda em greta, uma avalanche, fratura, edema cerebral, white out, entre tantos outros riscos subjetivos em potencial – é aí que a experiência e a minha capacidade em sair do problema (por já ter vivenciado ou simulado diversas vezes) fará toda a diferença.

Estou dizendo tudo isso pois quando uma pessoa confia à mim a sua vida, a sua segurança, eu considero isso como uma gigantesca responsabilidade (e infelizmente tem muita gente que age apenas como se fosse mais um trabalho qualquer).  Essa relação de confiança se manifesta na relação de proximidade que tentarei estabelecer com cada um de vocês.

Eu sinceramente não acredito que exista “o melhor isso” ou “o melhor aquilo”. Para mim, como guia de montanha, o sucesso de uma expedição não diz respeito se conseguiremos ou não chegarmos ao cume, e sim se todos retornaremos íntegros para nossas casas após o término da viagem. Na verdade, o cume é “só a cereja em cima do bolo”. (É por isso que deixo bem explícito que é ao meu exclusivo critério a decisão de permitir ou não que um participante continue para o “ataque ao cume”).

Quero finalizar esse longo email dizendo o seguinte: não existe montanhismo livre de riscos. Eles estão lá, a espreita para acontecerem assim que você ficar cansado e sem atenção, esperando que você cometa alguma bobagem…  minha responsabilidade é a de sem limitar ou excluir estes riscos objetivos, é tentar garantir que você possa envelhecer para contar essas histórias para os seus amigos!

Viajo dentro de 10 dias para uma rápida temporada nos Alpes, para os que vão comigo para lá, certamente teremos experiências fantásticas no berço do alpinismo mundial. Tanto o Mont Blanc quanto o Matterhorn são escalada de uma vida!

O Mont Blanc simboliza a escalada das grandes montanhas. O alpinismo começou ali há mais de 200 anos…  Apesar de tentarmos o cume através de uma rota fácil tecnicamente, teremos um grande risco subjetivo (avalanche e queda de rochas) ao passarmos pelo grand couloir que antecede o refúgio du Gôuter. Nesse trecho, mais do que nunca, velocidade será sinônimo de segurança.

No Matterhörn, testaremos ao máximo a resistência física. Entre sairmos para escalar e retornarmos ao acampamento base/refúgio, teremos um round trip de 12, 14 horas praticamente sem parada, com movimentação constante em uma escalada de 2 e 3 graus, em alguns poucos trechos de 4 grau. Escalaremos em simultâneo durante praticamente todo o percurso. No final da escalada, teremos uns 150 ou 200m de ascensão em neve/gelo.  O rapel da descida será o crux da escalada: mais de 40 rapéis até chegarmos ao chão… haja cansaço!

Na sequência da Europa sigo para a Bolívia, onde espero encontrarmos com todos os demais. (chego em La Paz no dia 19 de junho).

Na medida do possível tentarei receber a todos no aeroporto de La Paz (ou enviar alguém para recebê-los no aeroporto).

Para os que vão ao Huayna Potosi, saibam que apesar de grande parte das agências venderem a “idéia” de que é uma montanha fácil, ela está longe de ser algo assim… pô, é uma montanha com quase 6100m!  Para que estiver em processo de aclimatação ou em treinamento, iremos para o acampamento base a quase 4700m, onde ficaremos em um refúgio de montanha. Treinaremos alguns procedimentos no glaciar viejo enquanto damos tempos ao corpo para se adaptar a altitude, depois seguiremos por toda o contraforte até o campo alto, a 5130m, onde faremos mais uma parada estratégica.  Depois ainda teremos o campo argentino (onde podemos ou não fazer uma pausa estratégica também) e depois o cume com 6088m de altitude e uma visão incrível do sol nascendo!

Para os que vão para o Illimani, saibam que esse será o maior desafio físico que vocês já enfrentaram.  Chegar no pueblo de Pinaya já é uma grande aventura. A partir do Pueblo, iremos ao acampamento base, seguiremos depois ao acampamento avançado em nido de condores (um lugar frio, exposto e inóspito) e de lá, em um longo, cansativo e extenuante dia, iremos ao cume principal do Illimani, com seus quase 6500m de altitude. O trecho mais perigoso dessa ascensão será durante a descida (desescalando ou rapelando) do trecho técnico de gelo duro na pala chica (uns 30m realmente irritantes – quase todos os acidentes fatais no Illimani aconteceram nesse trecho, durante a descida).

Para os que vão ao curso no Condoriri, apenas chegar e ficar de bobeira no acampamento base já vale a viagem: que lugar maravilhoso é aquele! Tantas montanhas lindas, tanta coisa para fazer! Teremos o belíssimo Cerro Aústria, com quase 5200m, onde dá pra chegar caminhando de tênis, temos o Pico Mirador, de onde se têm uma visão muito bonita do altiplano boliviano, toda a visão das asas esquerda e direita, assim como a cabeça do Condoriri. Bom, teremos vários treinamentos no glaciar, e no dia do ataque ao cume, chegaremos ao pico do cerro Tarija. A visão que se têm do Pequeño Alpamayo a partir deste cume é indescritível. Para os que tiverem determinação (e vontade), poderemos descer o contraforte do Tarija e então culminar com o cume do Pequeño Alpamayo, um belo troféu a se trazer para casa.

Espero proporcionar a todos uma grande experiência no dia-a-dia no ambiente de montanha, e mais do que isso, tentar capacitar todos a terem a maior auto-suficiência possível para continuarem escalando (e se divertindo) nas grandes montanhas do mundo !

É isso.. um ótimo resto de semana a todos.

Hah… Sugiro fortemente que parem os treinos físicos na semana que antecede a sua viagem e se dediquem a comer, a tentar fazer uma espécie de reserva de gordura para a expedição.

Abraços e nos vemos “na montanha” !

Expedição Cordilheira Real – Bolivia 2012

Escalando em solitário

Esse post está aqui como uma resposta inicial à uma pergunta feita na lista de discussões da FEMERJ.

Não significa de forma alguma que estou incentivando ou apoiando qualquer uma das técnicas descritas no texto abaixo, inclusive, irei me abster de quaisquer comentários.

Se você não souber exatamente o que está fazendo, essa é uma forma muito fácil de morrer ou de se quebrar inteiro.

 

Protegido: Peugeout 106 – ano 2001

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Treine sua mente e então o seu corpo

Campeã do Ironman recomenda: treine sua mente e então seu corpo.

Chrissie Wellington

Nota do editor: Chrissie Wellington é tetra-campeã Mundial do Ironman. Ela venceu o quarto mundial em 2011 depois de se recuperar de ferimentos graves sofridos apenas duas semanas da prova. Sua autobiografia “Uma vida sem limites” foi lançada mês passado no Reino Unido.
 
O treinamento para uma prova é como andar numa montanha russa – você experimenta altos e baixos, melhoras e pioras, e mais picos e baixas que uma bolsa de valores.

Duas semanas antes do Mundial de Ironman em Kona, Havaí de 2011 eu sofri um sério acidente de bicicleta. Eu venci a prova, não como uma façanha física, mas pela coragem, força de vontade, determinação e força mental.
Eu espero ter demonstrado, através de minha performance lá, que o sucesso no esporte se baseia, em parte, em ter a força mental necessária para superar nosso medos, a dor e o desconforto.
Mas como se desenvolve esta virtude? É inata ou pode ser aprendida?

Acredito na última opção. Todos nós podemos treinar nossas mentes para serem tão fortes quanto nossos corpos. Parece simples, mas é fácil se esquecer. Se nossa cabeça fraquejar, nosso corpo vai junto. Mantenha sua mente animada e seu corpo será capaz de feitos incríveis. Parafraseando Kareem Abdul-Jabbar, “jamais se esqueça que você joga tanto com sua alma quanto com seu corpo”.

A mensagem é: toda a força física do mundo não vai te ajudar se sua mente não estiver preparada. Isso é parte do trinamento para uma corrida — a parte que as pessoas não registram em seus caderninhos, a parte que todos os monitores e aparatos eletrônicos do mundo não podem influenciar.

Mas como treinar seu cérebro para te ajudar a atingir seus objetivos? Não ouso dizer que tenho todas, ou muitas, das respostas. Mas nos meus 5 anos de triatleta profissional, eu pude aprender algumas técnicas que me ajudam a manter o foco no que importa e asseguram que eu posso andar na montanha russa do sucesso no esporte:

Tenha um mantra e/ou uma música especial para repetir

Eu escrevo meu mantra na minha garrafa de água e na minha munhequeira. Vê-lo me dá um gás e me relembra que nunca posso deixar minha mente ou meu coração se abater.
Se você usar um marcador permanente prepare-se para ter essas palavras gravadas em seu corpo muito tempo depois do fim da prova (e que você poderá receber olhares de estranheza quando voltar ao trabalho com a frase “são tão forte como um touro” tatuada em seu braço).

Eu também carrego uma cópia do famoso poema “If” de Rudyard Kipling por onde quer que eu vá. Eu acredito que as linhas desse poema contém as qualidades necessárias para se tornar um atleta de sucesso e uma pessoa bem desenvolvida. Lê-lo antes de uma prova me dá a confiança para perseguir meus sonhos.

Mantenha um banco de imagens positivas na mente. Estas imagens podem ser de familiares e amigos, de provas anteriores, belas paisagens ou de qualquer coisa que lhe dê prazer.
Busque essas imagens durante a prova, especialmente se surgirem dúvidas em sua mente do tipo “Estou cansado. Quero parar. Por que me inscrevi nessa prova? Devo estar louco.
Dê um nocaute nesses pensamentos antes que ele possam crescer e se tornar um monstro mental que acaba com toda a sua prova.
Pratique uma visualização de antemão

No treinamento, enquanto viaja, enquanto dorme ou no trabalho, este é o simples ato de fechar os olhos (embora eu não recomende fazer isso nuam reunião de trabalho ou enquanto pedala), relaxar seu cérebro e passar por cada fase da prova, um de cada vez — imaginando sua melhor performance mas também superando problemas em potencial.
Antes mesmo do Michael Phelps entrar na água, ele já tinha completado a corrida em sua mente. E venceu.
Você pode se inspirar em imagens (a linha de chegada), os sentimentos que experimenta (aumento de energia) ou nso sons que escuta (saudações da torcida). Desse modo, quando corre, você tem a paz de espírito e a confiança de que já venceu os desafios.

Divida a prova em partes menores e mais viáveis

Sempre penso na maratona como 4 provas de 10 quilômetros com um pouco mais no final.
Você pode pensar apenas em chegar ao próximo PC ou até a próxima cidade, para então estabelecer novo objetivo.
Concentre-se no momento e não pense muito à frente. Eu também tento respirar fundo e ritmadamente, se você acalmar sua respiração, você pode acalmar sua mente.

Lembre-se que treinar é aprender com a dor

Forçe seus limites físicos e os ultrapasse durante os treinos, de modo que durante a prova você saiba que vivenciou a dor e o desconforto.
Você terá confiança e paz de espírito com esta dica.

Chame pessoas para te dar apoio

Algumas pessoas crescem com apoio de familiares e amigos, enquanto outros acham que aumenta a pressão.
Trabalhe o que você acha adequado a você e, se necessário, convide amigos, familiares ou bichos de estimação para torcer por você. Peça para levarem cartazes, vestirem camisetas da equipe e se comportarem de uma maneira que seriam presos em circunstâncias normais.

Resgate a lembrança de pessoas inspiradoras

Eu relembro pessoas que lutaram contra as adversidades para completar o Ironman. Essas pessoas provaram que qualquer coisa é realmente possível
Considere dedicar cada quilômetro a uma pessoa especial em sua vida. Costuma tornar o desconforto mais fácil de suportar e ajuda a dar um reforço mental e físico.

Considere pedalar por uma causa maior que você

Eu pretendo estabelecer uma plataforma na qual posso difundir mensagens importantes e ser um ícone para a filantropia. Isso me força a colocar a prova em perspectiva e ir além delas.
Campeões surgem e somem, mas para mim o verdadeiro sucesso pessoal será o quanto eu realmente  fiz algo de positivo com as oportunidades que recebi.
Eu realmente espero que, como tetra-campeã mundial, eu possa ser uma protagonista e embaixadora do esporte de que todos possam se orgulhar.

Espero que estas dicas possam te trazer ‘medalhas de ouro’ e te qualificar para fazer a prova dos seus sonhos.
Nós ainda vamos enfrentar as baixas e momentos ruins, mas lembre-se que superá-los torna o sucessos muito mais doce.
Nas palavras do grande Muhammad Ali:

“Não se alcança o sucesso vencendo o tempo todo. O verdadeiro sucesso está em levantar depois de cair. Algumas montanhas são mais altas que outras. Algumas estradas mais íngremes que as outras. Há adversidades e recaídas mas você não pode deixar que te parem. Mesmo na mais íngreme subida você não deve recuar.”

Talvez você nem sempre tenha um dia perfeito, mas com o correto treinamento mental possivelmente essa volta de montanha russa será memorável.  Boa sorte!

Siga Wellington no Twitter para saber novidades em seus treinos e provas.  
Leia o artigo original na página da CNN

Contribuiu: Marcos Nicolaiewsky

fonte original: www.rio.audax.org.br/2012/03/treine-sua-…

Mal Agudo de Montanha e sua prevenção usando Ibuprofeno

Um artigo recém-publicado na Annals of Emergency Medicine e escrito pelo Dr. Grant Lipan, professor de medicina de emergência na Universidade de Stanford (e escalador, claro), concluir que o Ibuprofeno (nome comercial Advil) , em doses únicas de 600mg ou três doses de 200mg impede que um quadro de AMS (Acute Mountain Sickness) se instale, ou se instalado, progrida.

Até então o uso da Acetazolamida (Diamox (R) ) tem sido corriqueiro, mas com vários efeitos colaterais.

Claro que o temos que lembrar que o Ibuprofeno é da classe dos AINES, então seu uso por pessoas com problemas renais ou desidratadas é extremamente prejudicial…

Segundo o artigo, o Ibuprofeno impede a instalação de um quadro de AMS em 26% dos casos.

Infelizmente não consegui ter acesso ao artigo na íntegra, minha referência no momento está sendo este link:  climbing.about.com/b/2012/03/22/new-stud…

O site da revista é : www.annemergmed.com/article/S0196-0644(1…

 

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